O Mestre e o Mercador - A história de Masakata Taketsuru e Shinjiro Torii
- whiskylabsp
- Sep 5, 2025
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O Mestre das Terras Frias
Muito antes de seu nome tornar-se referência no cenário do whisky japonês, Masataka Taketsuru cresceu entre vapores doces de arroz e a alquimia silenciosa do saquê. Nascido em 1894, em Takehara, uma pequena cidade portuária na prefeitura de Hiroshima, Taketsuru era filho de uma família tradicional de fabricantes de saquê — um ofício tão ancestral quanto os templos de madeira que pontilhavam o interior do Japão.
Taketsuru era, ao mesmo tempo, respeitoso com as raízes e inquieto com os limites. Ainda jovem, mergulhou nos estudos de ciências e química na Universiade em Osaka, encontrando na precisão laboratorial um espelho para sua sensibilidade técnica. Um passo ousado em uma época em que poucos vislumbravam o casamento entre ciência moderna e os métodos de fermentação japoneses.
Foi durante seus estudos que ele ouviu falar pela primeira vez do whisky escocês— não apenas como bebida, mas como cultura, como ritual. Fascinado, buscou maneiras de aprender diretamente com os mestres escoceses.
Em 1918, seu mentor, Kihei Abe o levou para a produtora de bebidas Setsu Shuzu para posteriormente o enviar sozinho para o Reino Unido. A travessia, longa e difícil, foi também um rito de passagem.
Uma vez em Glasgow, matriculou-se em cursos de química aplicada e logo conseguiu estágios em destilarias tradicionais. Na Longmorn e Hazelburn e Bo’ness passou a estudar o processo completo da fabricação do whisky — da maltagem ao envelhecimento, do fogo ao silêncio do barril.

Na Escócia conheceu Rita Cowan, filha de um médico de classe média. Apaixonaram-se, casaram-se em 1920, e ela — sem saber — tornaria-se a primeira-dama do whisky japonês. Rita deixaria para trás sua terra natal para acompanhar Masataka em uma missão incerta: transplantar uma alma líquida europeia para o corpo cultural do Japão.

Mas para que essa alma tivesse uma morada, Taketsuru precisaria de mais do que conhecimento. Precisaria de um homem com visão, capital e coragem para desafiar tradições. E o destino o levaria até ele.
O Mercador da Harmonia
Shinjiro Torii nasceu em 1879, na vibrante cidade de Osaka, em uma época em que o Japão recém-saía da era Edo e descobria o mundo ocidental com olhos ao mesmo tempo deslumbrados e pragmáticos.
Vindo de origem humilde, Torii começou sua carreira ainda adolescente, trabalhando em uma farmácia especializada em remédios ocidentais — onde também se vendiam vinhos e bebidas importadas.
Rapidamente, Torii percebeu algo que poucos empresários enxergavam: o paladar japonês era diferente do ocidental mas estava mudando lentamente. Inspirado por essa transformação cultural, fundou em 1899 a Torii Shoten, que se tornaria, anos depois, a Kotobukiya Ltd..

Seu primeiro sucesso comercial foi o Akadama Port Wine, uma bebida inspirada no vinho do Porto, mas adaptada para os sabores preferidos pelos japoneses da época.

Mas Torii sonhava mais alto. Não queria apenas
importar ou adaptar bebidas ocidentais — queria fabricá-las em solo japonês. O whisky era, para ele, o emblema máximo da sofisticação europeia. Ainda que desconhecido pela maioria da população japonesa, Torii via no whisky uma ponte entre o ocidente e o espírito nipônico.
Porém, como transformar essa visão em realidade? Era necessário alguém com conhecimento técnico, alguém que soubesse destilar, envelhecer, interpretar o clima, o tempo, a madeira.
Em 1920, por meio de contatos na Osaka Technical School, Torii soube que um jovem engenheiro químico havia recém-retornado da Escócia com experiência prática em destilarias. Taketsuru era a peça que faltava.
Yamazaki – O Lugar Onde o Tempo Respira

Quando Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru se uniram não firmaram apenas um contrato: deram início ao nascimento de uma indústria inteira. Em 1923, a primeira destilaria de whisky do Japão começou a tomar forma em uma pequena vila chamada Yamazaki nos arredores de Kyoto.
A escolha não foi fortuita. A região ficava no encontro de três rios — Katsura, Uji e Kizu — e era famosa por sua umidade constante, suas brumas silenciosas e suas águas puras, consideradas ideais para o envelhecimento de bebidas alcoólicas. Era um lugar onde o tempo parecia respirar devagar, o que para Torii era sinônimo de maturação perfeita.
Taketsuru, por outro lado, resistiu. Ele queria construir a destilaria no norte, em Hokkaido, onde o clima frio e seco se assemelhava ao da Escócia. Mas Torii, atento ao mercado, sabia que uma localização mais próxima dos centros urbanos seria mais estratégica e mais econômica. A escolha de Yamazaki foi o primeiro sinal das diferenças irreconciliáveis entre eles.
A destilaria começou a operar com desafios imensos. O conhecimento técnico era escasso, os equipamentos eram parcialmente adaptados, e o público japonês ainda não compreendia o whisky como uma bebida para o cotidiano.
O primeiro produto, lançado em 1929, chamado Shirofuda (rótulo branco), foi um fracasso comercial. O sabor forte, turfado e seco — fiel ao modelo escocês — causava estranheza ao paladar japonês, acostumado à suavidade do saquê e do shōchū.

Torii viu aí a necessidade de adaptação. Taketsuru, porém, mantinha-se intransigente em sua fidelidade ao estilo escocês. E assim, em 1934, o mestre deixou Yamazaki — levando consigo sua experiência e sua fé naquilo que acreditava ser verdadeiro whisky. Fundou em Yoichi, Hokkaido, sua destilaria que mais tarde se tornaria a icônica empresa Nikka Whisky.
Torii, por sua vez, seguiu moldando a personalidade do whisky japonês — mais leve, mais arredondado, mais poético em boca. Em 1937, lançou o Kakubin, que enfim conquistou o gosto do público. A partir dali, a Suntory consolidaria sua liderança no mercado japonês — e, décadas depois, no mundo.

Ecos em Dois Alambiques
Dois homens, duas visões, dois caminhos. Mas a verdade é que o whisky japonês não existiria sem ambos. Taketsuru trouxe a chama da técnica, a alma da Escócia e a paixão do artesão. Torii deu a essa chama um lar, estrutura, propósito de mercado e vocação nacional.
O mestre e o mercador talvez nunca tenham brindado juntos depois da separação. Mas suas obras, destiladas em silêncio e tempo, continuam conversando em cada garrafa. Em cada taça de Nikka ou Suntory, o passado ferve e repousa — como o espírito de dois pioneiros que souberam sonhar de forma oposta, mas essencialmente complementar.
Yoichi — O Templo do Norte

Quando Masataka Taketsuru partiu de Yamazaki em 1934, levou consigo mais do que cadernos de anotações, fórmulas e lembranças escocesas. Levava um sonho ainda inacabado: o de criar um whisky que não apenas se parecesse com o escocês, mas que fosse digno de sua linhagem.
Após meses de busca, encontrou no norte gelado da ilha de Hokkaido, entre montanhas e o mar de Japão, a paisagem que mais se assemelhava à costa ocidental da Escócia.
Yoichi, uma vila isolada, cortada pelo vento marítimo e cercada por florestas densas, oferecia o clima ideal para o amadurecimento lento e rigoroso que ele desejava. Lá, com esforço quase artesanal, erigiu a primeira destilaria da Dai Nippon Kaju (posteriormente rebatizada como Nikka, em uma fusão do “Nippon” e do “kaju”—suco de frutas), com produção iniciada em 1936.

Yoichi não era uma escolha comercial, era uma escolha espiritual. A destilaria foi construída com fornos a carvão, como na Escócia antiga, com alambiques de cobre aquecidos por fogo direto — uma prática quase extinta. Taketsuru acreditava que o calor direto dava ao destilado maior corpo e profundidade.

A madeira para os barris vinha das florestas locais de Mizunara, e a água, puríssima, jorrava das montanhas próximas.
Enquanto a Suntory, sob o comando de Torii, buscava agradar o paladar popular japonês com whiskies leves e doces, Taketsuru se mantinha fiel a uma filosofia de sabor robusto, seco e encorpado. Suas garrafas não procuravam multidões, mas corações apaixonados. Eram whiskys para quem buscava o espírito da Escócia reinterpretado com a minúcia japonesa.
Mesmo com todas as adversidades — o isolamento, a falta de recursos, o início da guerra, a Yoichi sobreviveu. Rita, sua esposa, era sua maior companheira nessa travessia silenciosa. Enfrentaram juntos o frio, o preconceito contra estrangeiros durante a guerra, e os anos em que o Japão parecia ter esquecido do whisky. Mas Masataka não esquecia de seu propósito. E com o tempo, a terra começou a lhe devolver o que ele havia plantado: profundidade, caráter, identidade.
Ecos do Silêncio — Guerra, Reconstrução e Glória
A Segunda Guerra Mundial mergulhou o Japão em uma escuridão difícil de mensurar. Tanto a Suntory quanto a Nikka viram sua produção se modificar, seus consumidores tradicionais desapareceram e a bebida que uma vez simbolizara sofisticação ocidental passou a ser fornecida quase que exclusivamente para o corpo militar do país.
Mas o pós-guerra trouxe uma reconfiguração profunda. O Japão, em reconstrução, buscava formas de reafirmar sua identidade e, ao mesmo tempo, encontrar seu lugar em um mundo globalizado. O whisky voltou a ser desejado — não apenas como produto, mas como símbolo de refinamento moderno. E nessa nova era, as diferenças entre Nikka e Suntory tornaram-se ainda mais visíveis.

Torii, falecido em 1962, deixara uma estrutura sólida. Sob o comando de seu filho, Keizo Saji, a Suntory expandiu sua linha, estabeleceu sua destilaria de graos (Chita,1972 ) e uma nova de single malt (Hakushu,1973), sofisticou seus blends lançando novos rótulos como o Royal, Crest e Hibiki e apresentou os seus primeiros single malts, que elevaram o conceito de whisky japonês à arte. A Yamazaki foi modernizada, mas manteve seu ethos de sutileza e elegância, cultivando sabores que ressoavam como haicais líquidos — delicados, complexos, emocionais.

Já Taketsuru, que morreu em 1979, viu sua Nikka crescer com humildade e integridade. Nos anos 1960, criou uma segunda destilaria (1969), Miyagikyo, no interior de Sendai, uma região com clima e geografia diferentes de Yoichi, permitindo a produção de maltes mais leves, florais e frutados. Essa diversidade deu à Nikka versatilidade para criar blends mais equilibrados, sem trair seu estilo original.
Durante anos, ambas as marcas permaneceram gigantes silenciosos. Reverenciadas no Japão, mas desconhecidas fora dele. Isso mudou radicalmente no início dos anos 2000. Premiações internacionais dos single malt da Yamazaki e da Yoichi 10 anos abalaram o mundo do whisky como um trovão inesperado.
A crítica ocidental, acostumada a olhar apenas para Escócia, Irlanda e Estados Unidos, descobria que, nas sombras das montanhas japonesas, haviam nascido espíritos com complexidade e alma comparáveis aos seus ancestrais europeus.
Desde então, Nikka e Suntory disputam prêmios, colecionadores e corações, como dois mestres que deixaram uma escola tão profunda que mesmo suas divergências se tornaram harmonias.


Um Brinde no Além
Nas paredes silenciosas das destilarias Yamazaki e Yoichi, o tempo ainda respira. O vapor dos alambiques sobe como uma prece invisível. Em cada gota, repousa o espírito de dois homens que jamais voltaram a se falar, mas que, paradoxalmente, dialogam até hoje.
Shinjiro Torii, o estrategista, fez do whisky um produto nacional. Masataka Taketsuru, o artesão, fez dele uma obra-prima. Juntos — ainda que separados — transformaram um país sem tradição em uma potência mundial da destilação.
Eles não criaram o whisky japonês como sócios. Criaram como rivais. E talvez por isso ele seja tão profundo, tão contraditório, tão sublime.









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